segunda-feira, 11 de junho de 2012

Natural

        Quando penso na vida embalada feito plástico que a gente vive, penso logo de onde eu vim, da terra e da água tão naturais como a luz do sol que transcende a janela. Que por sinal fica tão entre-aberta que os ventos vindos do sul escancaram as cortinas soprando-as bem pro alto, quase que como um convite pra dançar junto. Isso do natural me deixa tão bem, e nos faz tão bem. Se não fosse amor, diria que era loucura alguém acordar com a cara amassada, vestida de calça moletom verde-água um tanto já descorada e receber o “bom dia” do jeito mais natural e tão meigo dessa vida. E como eu gosto, gosto tanto e de tudo isso que até contar as marcas do corpo me fascinam, sei que não há no mundo algo mais natural que perceber os defeitos do outro, e nem fazer conta disso. Porque uma hora ou outra a gente descobre que as mãos envelhecem, mas o carinho que elas fazem não, que as rugas na testa tornam-se cada vez mais visíveis, porque certamente traçaram as linhas das preocupações, das decepções, dos sorrisos que nos mataram de rir e deformaram nossos rostos. Lembro de um dia chuvoso, cinza, que não tinha realmente nenhuma graça, mas você pintou a beleza natural daquelas nuvens quase soltas no céu, desmanchadas a cada segundo pelo vento que soprava forte lá fora. Era o natural dos seus olhos que deslumbraram os meus, dias cinzas ganharam a cor da sua beleza, dos seus olhos tão pequenos e audaciosos que encantam os meus, todos os dias. Digo que estar tão perto assim me convence que é possível levar a vida mais frágil, mais simples, menos dramática e frustrada. Era preciso ser transparente, dar-se por inteiro sem ter medo de não ter sido natural. Lentes de fotografias não mostram o que a vida tem ou o que elas são, parecem imagens desconfiguradas como uma gestalt à procura do retrato, sabe? Traços não se moldam, distâncias não se encurtam, perfeição não existe. Pode ser que uma vez aqui, outra ali, as coisas percam o sentido da vida e se desalinhem, fazem parte de um mundo complexo que a gente vive, cheios de incongruências. Incapacidade também de descobrir novos sentimentos porque gosta de pendurar problemas no varal pra todo mundo ver, pregar propaganda no coração e vender a custo.
      Ser natural me permite acreditar que o amor existe, lindo sim, natural como natureza, como flor desabrochada no galho mais alto da árvore. Diferença.

Dani*

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fim

“Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por favor, confiem em mim. Decididamente, seu sei ser animada, sei ser amável. Agradável, Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.
Eis um pequeno fato: Você vai morrer

Isso preocupa você?
Insisto - não tenha medo.
Sou tudo, menos injusta.”
                                                                                          (Markus Zusak, em A Menina que roubava livros)

"Lá de cima eu via aquele trem desgovernado, vindo na direção contrária do sol. Pouco tempo depois ele ia se descarrilando e cada vagão era brutalmente jogado para os lados. Sem dó nem pena. E dentro dele haviam pessoas que gritavam por socorro, e outras que, acarretadas pelo desespero se jogavam por dentre os trilhos, perdendo o fio de vida que ainda lhes restavam, lutando ironicamente pela suposta sobrevivência.

Quando a tragédia deu-se por inteira, só o que se via eram corpos perdidos no meio do caminho, do fim sem sentido, da história arrancada de dentro de cada uma delas. Todos por um momento estavam cobertos por um resquício de memória quando foram abaladas na sua plenitude. O pouco de saudade que havia restado, ficaram presas dentro vagão e que pouco a pouco iam sendo jogadas para fora também.

Enquanto alguns ainda gritavam por piedade, outros se deleitavam na conformidade, na mesmice, esperando que sua vida fosse salva pelo além e enquanto alguns achavam que o fim da vida era o começo da tão sonhada eternidade, outros acreditavam que a morte em vida ainda era um sinal claro sobre-a-vivência.

Quando o céu resolver manchar o dia de preto, nada mais fazia sentido naquela escuridão, eram almas flutuando a procura da luz e apegos e desapegos tornando-se verdade naquele lugar.

Por instinto de apreciação da vida, preferi fechar as janelas e deixá-las agonizar lá fora."